Entrevista: Maria Thereza Canário

O blog Flamenco no Rio de Janeiro está com novidades! Vamos ter uma entrevista por mês com artistas de Flamenco da nossa cidade. Estreamos esta categoria no blog com Maria Thereza Canário, diretora do Estúdio Bailado, em Ipanema.


Thereza iniciou seus estudos em dança aos 8 anos e, já aos 14 começou a dar aulas. Em 2004, abriu o Estúdio Bailado. Além de ter feito parte de alguns grupos, fez aulas com alguns maestros que passaram pelo Rio de Janeiro: Ciro, Antônio de Córdoba, Gustavo Cancela, La China, La Mora, Adrian Gália, Esther Ponces, Antônio Reyes. Em 2004, resolve ir para a Espanha e estudar com El Guito, La Tati, El Manolete, Maria Madalena e novamente Ciro. A partir daí vem se reciclando com os principais nomes do Flamenco: Rafaela Carrasco, Domingo Ortega, Pol Vaquero, Natalia Meirin, Alfonso Losa, Nino de los Reyes, Manuel Liñan. Em 1997, criou a Cia Teresa Máximo de Dança Flamenca, hoje, Grupo Flamenco Maria Thereza Canário que participou e venceu vários festivais de dança. Com o objetivo de difundir e desenvolver o flamenco, produziu o Arte Espanha Rio, festival, que de 1995 a 1999, fortaleceu esta arte e reuniu seus apaixonados. Desde 2009 atua como produtora de eventos como Conexão Espanha 2009 e 2010, Hembra 2008 e Hembra Interferências, seu espetáculo mais recente.

FlamencoRJ: Você iniciou seus estudos em ballet clássico, como foi seu “trajeto” até chegar ao flamenco?
Thereza: Comecei a estudar dança aos 8 anos de idade no Ballet Shirley Lins que funcionava no Colégio Notre Dame. Ao me formar , fiz prova para a Escola de Danças do Teatro Municipal, hoje, Maria Olenewa, onde fiz o curso técnico, três últimos anos e me formei também. Nas duas escolas estudei outras matérias práticas como jazz, tap dance, dança moderna, danças folclóricas internacionais e nacionais, dança espanhola e teóricas como história da dança, ritmoplastia, pedagogia e metodologia. Sou bacharel em Arquitetura na Universidade Santa Úrsula, mas nunca exerci esta profissão e tenho o curso de Licenciatura Plena em Dança na Univercidade.

FRJ: Como foi o seu aprendizado de flamenco?
Thereza:
Descobri o Flamenco vendo “Carmen ” de Carlos Saura e comecei a estudar com uma amiga em 1986, que havia participado do grupo da Casa de Espanha. Era raríssimo Flamenco aqui no Rio e estilizado, me proporcionando no início muito trabalho para corrigir os equivocos quanto à técnica que aprendi. Em 1994 , quando começaram a vir mais maestros da Espanha, me dei conta do quanto estava equivocada com relação à verdadeira linguagem do Flamenco e, desde então, comecei a buscar o que havia de correto por aqui e o que vinha para cá. Estudei 2 meses na Espanha  e cheguei até a parar o balé para intensificar meu aprofundamento nesta linguagem.

FRJ: O que te motivou a abrir o Estudio Bailado no Rio?
Thereza: Trabalho como professora de dança desde os 14 anos e sei que a dança faz parte da minha vida. Então, em 2004 , tomei coragem e resolvi materializar o meu objetivo de vida, VIVER DE DANÇA.

FRJ: Como professora, como é o formar um bailarino? Que importância isso tem para você?
Thereza: Eu adoro ser professora e, para mim, é muito gratificante e prazeroso moldar um corpo para dança e dar a este indivíduo a capacidade de se expressar através deste, após um aprimoramento técnico e um auto-conhecimento que o ajudará também na vida.

FRJ: Para você, o que é um bom bailarino de Flamenco?
Thereza:
Para mim, bailar bem depende de uma técnica à disposição de uma intenção corporal do artista. A técnica é fundamental , mas se você não se expressa através de quem você é e de suas emoções, para mim, não é dança, é acrobacia. Um artista, em qualquer arte, tem que mergulhar em si mesmo para que esta seja verdadeira.

FRJ: E fazer Flamenco profissionalmente no Brasil? Que tipo de dificuldades você já enfrentou ou ainda enfrenta?
Thereza:
Bom, ser artista  no mundo de hoje não é fácil , pois existe ainda um pensamento de objetividade na vida que prioriza alguns valores errados e com isso as pessoas acabam ficando doentes por não entenderem o que é de verdade “BEM ESTAR”. Ganham dinheiro e, dependendo desta relação, elas acabam gastando com doenças. A Arte neste contexto é vista como atividade secundária e seus profissionais acabam sofrendo com esta desvalorização que vejo, não de má fé , mas de fé errada na objetividade, buscando metas e resultados.

FRJ: O que você acha que falta no Flamenco do Brasil?
Thereza:
Acima de tudo ser divulgado e reconhecido como mais uma Arte que os brasileiros fazem bem. E também ser visto como mais uma linguagem universal do corpo, não um movimento regional.

FRJ: Como você vivencia a experiência de bailar? No palco, o que fala mais alto: a emoção ou a técnica?
Thereza:
No meu caso, sempre procuro estar o melhor posível tecnicamente, mas não abro mão da emoção que me vem ao bailar que muitas vezes pode me destruturar de alguma forma, é um risco que prefiro correr.

FRJ: Que bailarinos você toma como referência para o seu trabalho? Por quê?
Thereza:
Tenho 2 pessoas que me influenciaram em meu baile: “La Mora” por sua arte absolutamente incendiada e visceral que não se pode entender, só sentir e Domingo Ortega que tem uma técnica que beira à perfeição e resulta controle, sinuosidade e musicalidade a serviço de uma emoção que sai pelos poros e com uma mirada que mais sente do que vê.

FRJ: Como você define o flamenco na sua vida?
Thereza:
É a minha forma de entender meu corpo e minha alma e a vida.

FRJ: No ano passado, você apresentou o seu espetáculo “Hembra – Interferências”. Fale um pouco sobre a construção do espetáculo.
Thereza:
Acho que o este texto que abre o espetáculo, resume a idéia de vivenciar um momento muito significativo de minha vida onde as transformações ocorreram de forma pessoal e artística.
Uma mulher que no decorrer de sua vida se desprendeu de sua essência, se afastou de seus valores abrindo mão de si mesma em prol do mundo, traça seu caminho de volta a si neste espetáculo de dança e música. Este musical flamenco visa representar a integração de mundos, de histórias, de linguagens para falar de questões do feminino através de uma (re)utilização de elementos clássicos e simbólicos do flamenco, onde o interno e o externo, o regional e o atual, o material e o imaterial se confundem e se expandem na interação entre flamenco e contemporâneo.
… “Estar perto de si, percebendo as interferências. Limpar-se do que não é seu. Abrir espaço para um vazio. Dar tempo para que este seja um terreno fértil onde brotará o essencial. Solo fértil que se resolve, sem imposições, sem expectativas, sem negociações, sem medo. Será possível?” (Maria Thereza Canario)

FRJ: E para este ano, quais são os projetos? O que a gente pode esperar de novidade no Estudio Bailado?
Thereza:
Agora no início do ano iniciamos uma série de workshops que seguirão de forma diferenciada por todo o ano com temas não só de flamenco, mas também de outras danças e de auto-conhecimento. Estamos com projetos inscritos no CCO de pesquisa dentro do Flamenco, estamos também em parceria com os projetos internacionais, “Conexão Espanha”, agora com Pol Vaquero, Isaac de los Reyes y Juañares e pretendemos também realizar o nosso maior desejo, que é “Orfeu” com Domingo e Inmaculada Ortega. Ou seja muitas novidades. Aguardem!

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