Há dois anos, o Flamenco perdia Paco de Lucía

No dia 25 de Fevereiro de 2014, em Cancún, no México, o guitarrista, compositor e produtor Paco de Lucía sofreu um infarto e faleceu a caminho do hospital. O Flamenco e a cultura espanhola perderam, então, um de seus mais importantes pilares.

Paco foi o músico que, sem nunca perder o contato com a essência, foi capaz de mesclar o Flamenco a outras sonoridades, como o jazz, a bossa-nova, os blues, a salsa, a música árabe e outras.  “Nunca perdi a ligação com as raízes na minha música”, afirmou numa entrevista na década de 1990. “O que tentei fazer foi situar-me na tradição e, ao mesmo tempo, procurar em outros territórios, coisas novas para transportar para o flamenco”.

paco

Nascido em Cádiz, no dia 21 de dezembro, tornou-se um músico mundialmente conhecido, que teve o mérito de modernizar e popularizar internacionalmente a música Flamenca. Começou a tocar aos 7 anos, com o instrumento do pai. Ganhou seu apelido por conta de sua mãe portuguesa, sendo chamado, na infância, de “Paco, el de Lucía” (Paco, o filho de Lucía), como se costumava fazer na Andaluzia.

Aos 12 anos, formou o dueto “Los Chiquitos”, com seu irmão Pepe como cantor e, em 1961, eles foram premiados em um concurso em Jerez, o que o permitiu gravar seu primeiro disco. Contratado pelo bailarino José Greco em 1960 como terceiro guitarrista da Companhia de Balé Clássico Espanhol, fez sua primeira turnê pelos EUA, ao lado de Camarón, El Lebrijano, El Farruco e Juan Moya.

Acompanhado por seus irmãos Ramón de Algeciras e Pepe de Lucía, gravou seus primeiros discos solo em meados dos anos 1960: “La Fabulosa Guitarra de Paco de Lucía” (1967) e “Fantasía Flamenca” (1969).

Mas a consagração veio nos anos 1970, com memoráveis atuações no Palau de Barcelona (1970), no Tearo Real e no Teatro Monumental de Madri (1975), além de seu primeiro registro ao vivo (“Paco en vivo desde el Teatro Real”), que lhe rendeu um disco de ouro.

Foi em Madri que surgiu a mítica dupla El Camarón-De Lucía, que renovou o flamenco com purismo e virtuosismo e que se traduziu em mais de dez discos de estúdio, como “El Duende Flamenco” (1972) e “Fuente y Caudal” (1973).

Ganhou o Prêmio Castillete de Oro del Festival de Las Minas em 1975; o single de ouro em 1976 por “Entre dos Águas”; e o disco de ouro em 1976 por “Fuente y Caudal”.

No final dos anos 1970, ganhou muita popularidade fora da Espanha por seus trabalhos com os guitarristas John McLaughlin, Al Di Meola e Larry Coryell.

Fundou em 1981 seu “Sexteto”, com Ramón de Algeciras (segundo violão), Pepe de Lucía (vocais e palmas), Jorge Pardo (saxofone e flauta), Rubén Dantas (percussão) e Carles Benavent (baixo).

No ano de 1983 participou como ele mesmo no filme “Carmen” de Carlos Saura, onde é o músico que toca nas apresentações no palco do filme.

Colaborou no disco “Potro de Rabia y Miel” de Camarón, e a morte deste, em 1992, o fez cancelar suas apresentações por todo o mundo durante quase um ano. Inclusive pensou em se aposentar, retornando um ano depois aos palcos com uma nova turnê.

Entre seus discos, estão “Fantasía Flamenca”, “Recital de Guitarra”, “El Duende Flamenco de Paco de Lucía”, “Almoraima”, “Solo Quiero Caminar”, “Paco de Lucía en Moscú”, “Zyryab”, “Siroco’ e ‘Lucía” (1998)

Após um hiato de cinco anos, em 2004 gravou “Cositas Buenas”, considerado pela crítica uma “obra prima”, com oito temas inéditos, acompanhado pelo violão de Tomatito e pela voz recuperada de Camarón, e que lhe rendeu o Grammy Latino de melhor álbum de flamenco.

Um ano antes, lançou sua primeira coletânea, “Paco de Lucía Por Descubrir”, com seus trabalhos de 1964 a 1998. Em 29 de junho de 2010, ofereceu um concerto para 2,5 mil espectadores na Puerta del Ángel de Madri.

Em 2011, participou em um disco de flamenco tradicional do músico Miguel Poveda. Tornou-se Doutor Honoris Causa pela Universidade de Cádiz e pelo Berklee College of Music de Boston (EUA, 2010).

Discípulo de Niño Ricardo e de Sabicas, e respeitado por músicos de jazz, rock e blues por seu estilo próprio, alcançou, entre muitos outros reconhecimentos, um Grammy para o melhor álbum de flamenco em 2004; o Prêmio Nacional de Guitarra de Arte Flamenco; a Medalha de Ouro ao Mérito das Belas Artes em 1992; o Prêmio Pastora Pavón La Niña de los Peines de 2002; e o Prêmio Honorário da Música de 2002.

Por conta da sua capacidade de mesclar estilos aos Flamenco, Paco foi o responsável pela introdução do cajón peruano à música flamenca. Esse instrumento de percussão é, hoje em dia, um dos elementos mais importantes do Flamenco. Segundo relatos do próprio compositor, Paco chegou a Lima para uma apresentação e o embaixador da Espanha no Peru aproveitou a oportunidade para realizar uma festa em sua homenagem com a participação de vários músicos locais, entre eles Chabuca Granda. A artista peruana cantou junto a Caitro Soto, um dos mais importantes percussionistas peruano e Paco ficou fascinado com o instrumento tocado por Caitro. Acreditava que era o som que faltava ao Flamenco que, até esta noite de 1977, era interpretado somente com palmas.  Paco comprou o cajón de Caitro e o entregou ao percussionista de sua banda, Rubén Dantas e, assim começou a viagem e popularização do cajón pelo mundo.

Nos últimos anos viveu em vários locais, em Espanha (Palma de Maiorca, Toledo), e fora também (Cuba, México), numa mistura de bonomia e isolamento, marcas da sua personalidade reconhecidas pelos que com ele conviviam, e também presentes na forma como olhava para música: qualquer coisa fundada na cultura local da Andaluzia, aprofundada de forma individual, mas expressada de forma comunitária e com um enorme apelo global.

¡Olé tú, Paco! ¡Te echamos de menos!

(Fontes: Wikipedia, O Globo, Jornal Público Pt, El Mundo)

 

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